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CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO “FÉ E EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES DA REFORMA NA ÁREA DO ENSINO"

May 7, 2018

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O CONCEITO DE REINO DE DEUS NOS EVANGELHOS SINÓTICOS

INTRODUÇÃO:

 

Na opinião dos mais conceituados estudiosos do Novo Testamento, o tema mais tratado por Jesus nos evangelhos sinópticos[1] é o Reino de Deus. Ao iniciarmos uma leitura dos evangelhos, podemos verificar que isso, de fato, é verdade.

 

O texto de Marcos 1.14-15 diz: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: completou-se o tempo, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho.” O texto revela o início do ministério do Senhor Jesus, e o conteúdo de sua mensagem era exatamente o Reino Deus.

 

Porém, quando falamos sobre o Reino de Deus, a impressão que temos é que falamos de algo que não é conhecido. Parece que estamos trazendo ao conhecimento de todos um novo ensinamento, uma nova doutrina, algo novo, quando não há nada de novo nisso.

 

Visando esclarecer as dúvidas acerca do tema, inicialmente tentarei responder às seguintes perguntas: O que é o Reino de Deus? O que Jesus queria dizer quando falava sobre o Reino de Deus? Qual o interesse desse assunto para a nossa vida cristã hoje? Estes e alguns outros problemas serão abordados abaixo.

 

1. A VISÃO DO VELHO TESTAMENTO SOBRE O REINO DE DEUS

 

O Velho Testamento apresenta o Senhor como Rei em muitos textos. Essa expressão veterotestamentária de Deus como Rei relaciona-se diretamente com o atributo divino da soberania. Ou seja, desde o Antigo Testamento, os israelitas já conheciam e reconheciam a soberania de Deus não somente sobre sua nação, mas também sobre todos os povos da terra. Vejamos alguns textos que respaldam esta afirmação:

 

“O Senhor reinará eternamente” (Êxodo 15.18)

 

“Nenhuma desgraça se vê em Jacó, nenhum sofrimento em Israel. O Senhor, o seu Deus, está com eles; obrado de aclamação do Rei está no meio deles” (Números 23.21)

 

“E Ezequias orou ao Senhor: “Senhor, Deus de Israel, que reina em teu trono, entre os querubins, só tu és Deus sobre todos os reinos da terra. Tu criaste os céus e a terra”” (II Reis 19.15)

 

“O Senhor assentou-se soberano sobre o dilúvio; o Senhor reina soberano para sempre” (Salmos 29.10)

 

“Eu Sou o Senhor, o Santo de vocês, o Criador de Israel e o seu Rei” (Isaías 43.15)

 

Mas o Velho Testamento apresenta também o Senhor que se tornará Rei. Essa conotação veterotestamentária apresenta a descrição profética acerca do Messias prometido, que teve o seu cumprimento na pessoa histórica do Senhor Jesus Cristo. Vejamos alguns textos que nos respaldam quanto a isso:

 

“A lua ficará humilhada, e o sol, envergonhado; pois o Senhor dos Exércitos reinará no monte Sião e em Jerusalém, glorioso na presença dos seus líderes! (Isaías 24.23)”

 

“Pois o Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso rei; e ele nos salvará” (Isaías 33.33)

 

“Como são belos nos montes os pés daqueles que anunciam boas novas, que proclamam a paz, que trazem boas notícias, que proclamam salvação, que dizem a Sião: O seu Deus reina!” (Isaías 52.7)

 

“O Senhor anulou a sentença contra você, ele fez retroceder os seus inimigos. O Senhor, o Rei de Israel, está em seu meio; nunca mais você temerá perigo algum” (Sofonias 3.15)

 

“O Senhor será rei sobre toda a terra. Naquele dia haverá um só Senhor e o seu nome será o único nome” (Zacarias 14.9)

 

Como anteriormente mencionamos, os israelitas criam que Deus era soberano e por este motivo reinava sobre a Israel e sobre os povos vizinhos. Porém, ao lermos os versículos supracitados, podemos entender que Israel nutria sempre a esperança do irromper divino na história, buscando a salvação do seu povo.

 

Essa percepção de salvação não se manifestava unicamente através da expectativa de um futuro próximo, mas também de uma consumação escatológica. Ou seja, em muitas mensagens proféticas, o juízo de Deus se daria neste tempo presente, e, em outros casos, haveria uma intervenção final de Deus na história. Todavia, de uma forma não tão clara, Israel aguardava a vinda do Reino de Deus. Vejamos o que diz o Dr. Ladd:

 

“De qualquer modo, em toda a extensão do judaísmo, a vinda do Reino de Deus foi aguardada como um ato de Deus – talvez utilizando agentes humanos – para derrotar os inimigos ímpios de Israel e reunir este povo disperso, vitorioso sobre seus inimigos, em sua terra prometida, unicamente sob o domínio de Deus”.[2]

 

2. O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO BASILEIA TOU THEOU – “REINO DE DEUS”

 

Segundo George Ladd, a melhor maneira de entendermos o real sentido desta expressão – Basileia tou Theou – é a compreensão de que o Senhor é o Rei Soberano em nossas vidas no tempo presente, mas se tornará de forma plena na consumação escatológica, em sua parousia.[3]

 

Jesus, ao encarnar, trouxe consigo o Reino de Deus, manifestando-o entre nós. Ao romper as esferas temporais, Jesus trouxe a possibilidade obtermos valores que são eternos, neste tempo presente. Através de seu sacrifício, Ele nos possibilitou sermos salvos hoje, mas também sermos salvos no futuro, ou seja, por ocasião de sua parousia, ou quando da morte.

 

Diferentemente do Antigo Testamento, onde ocorriam manifestações do Reino de Deus em períodos específicos, através da pessoa de Jesus o Reino de Deus foi implantando na esfera temporal para ser consumado na esfera eterna.

           

3. O DUALISMO CÓSMICO (O JÁ, MAS AINDA NÃO)

 

Ao entendermos que o Reino de Deus sempre esteve presente no Antigo Testamento, em paralelo a este presente século, tendo irrupções em momentos específicos da história por Deus como nos episódios do dilúvio, êxodo, cativeiro babilônico, etc., fica fácil entender a implicação do Reino de Deus entre nós.

 

O Reino sempre existiu de fato e de direto no governo soberano do Senhor, ou seja, Deus sempre esteve no controle da história, desde a eternidade. Porém, ao se encarnar na pessoa de Jesus de Nazaré, Ele trouxe a eternidade para o tempo presente, apontando para uma consumação futura. Sua encarnação possibilitou a inauguração do Reino de Deus, e sua ressurreição possibilitou a esperança de consumação do mesmo Reino.

 

4. O REINO COMO UM DOM PRESENTE

 

Ao falar do Reino, Jesus o colocou em paralelo à vida eterna. Vejamos o que Ladd diz:

 

“Em resposta a pergunta do mancebo as condições de herdar a vida Eterna (Mc. 10.17), Jesus referiu-se a entrar no Reino (10.23,24) e receber a vida eterna (10.30) como se esses fossem conceitos sinônimos. O Reino é um dom que o Pai se agrada em conferir ao pequeno rebanho dos discípulos de Jesus (Lc.12.32)”.[4]

 

Jesus disse que o Reino deve ser recebido à semelhança das crianças. As crianças, no ensino de Jesus, são caracterizadas pela confiança no pai: denotam uma atitude responsiva, a satisfação em receber uma dádiva (um presente). Elas se encaixam perfeitamente no sermão do monte, quando o Senhor Jesus diz que os que pedem recebem, e os buscam acham (Mateus 7.7).

 

Devemos ter o coração como o de uma criança e sermos gratos ao Deus por fazermos parte do grupo de discípulos de Jesus a quem é dada a entrada no Reino dos Céus.

 

Creio que seja por este motivo que Lewis expressou euforia a da dádiva do presente do Reino através dos olhos dos quatro reis ao entrar em Nárnia. O olhar de uma criança, ao receber um presente, de fato, demonstra a realidade do seu coração acerca de um presente que ganhou.

 

5. O DOM DA SALVAÇÃO

 

O dom da salvação se encontra nos evangelhos de duas formas: a salvação escatológica e a comunhão com Deus. Podemos experimentar estas duas esferas mesmo no tempo presente. Somos salvos, e por este motivo Jesus proporciona através do seu sacrifício entrarmos na presença do Pai e desfrutarmos de Sua santa presença.

 

No futuro, seja em nossa morte ou através da vinda do Senhor Jesus, iremos desfrutar da salvação do poder da morte, ressuscitando em um corpo glorificado que desfrutará de uma plena comunhão com o nosso Senhor Jesus Cristo na nova criação.

 

Podemos perceber que alegria da salvação é experimentada neste tempo presente através da parábola do filho pródigo, da dracma perdida, do encontro de Jesus com Zaqueu, e de alguns outros textos dos evangelhos. E em relação a comunhão, basta olharmos para o fato de Jesus participar da comunhão (refeições) com os pecadores no tempo presente.

 

6. O DOM DO PERDÃO

 

Ao olharmos a atitude de Jesus em algumas passagens, ao falar sobre o perdão, nós podemos verificar como os líderes religiosos ficavam irados, pois segundos eles, “quem era Jesus para perdoar pecados” (?), afinal de contas, só Deus, têm esse poder.

 

Quando Jesus em Marcos 2 utiliza a expressão Filho do Homem, ele está se referindo a figura messiânica de Daniel 7.13, e Ele diz que essa promessa messiânica se cumprira em si mesmo.

 

Ladd vai dizer que “Jesus não ensinou uma nova doutrina acerca do perdão; Ele trouxe aos pecadores perdidos uma nova experiência de perdão”. Quando Jesus disse a mulher na casa de Simão que seus pecados estavam perdoados, Ele não disse que Deus a estava perdoando, ou falou sobre a salvação em Deus. Ele foi taxativo: “Os teus pecados estão perdoados” (Lc. 7.48).

 

Jesus em sua encarnação propiciou a humanidade aquilo que os profetas no Antigo Testamento haviam prometido somente no futuro, como benção escatológica do Reino Eterno de Deus.

 

7. A DÁDIVA DA JUSTIÇA

 

Nos ensinos de Jesus a justiça não é alcançada pelos méritos humanos, por uma busca de perfeição através de uma conduta ética e moral irretocáveis. Pelo contrário, Jesus nos aponta a justiça como algo outorgado pela graça através da entrada do individuo no Reino de Deus pela fé. Por este motivo, ele diz que nós devemos buscar primeiro o Reino de Deus e sua Justiça (a justiça de Deus, e não nossa). De modo que automaticamente, ao buscarmos o Reino de Deus, somos justificados pelo Deus do Reino: somente Ele, através do seu próprio mérito, pode justificar-nos.

 

Ter a justiça acima daquela dos escribas e dos fariseus, não significa sermos padrões perfeitos de justiça; significa sermos participantes do Reino que é justo, porque o seu Rei é justo.

 

É com esta cosmovisão que devemos olhar para Lucas 18.14 – a parábola do fariseu e do publicano e suas respectivas orações. Diz Jesus que o fariseu considerava-se irrepreensível em sua prática da lei, mas não foi justificado Deus devido ao seu coração altivo e autossuficiente. Já o publicano, que não se achava merecedor de nada, indigno e pecador, saiu daquele lugar justificado pelo próprio Deus, que o faz por Ser justo e justificador daqueles que creem.

 

Ao olharmos para todos os ensinamentos de Jesus nos evangelhos sobre justiça, podemos sempre sinalizar que o padrão exigido por Jesus é alto demais. Por este motivo, é impossível aos pecadores alcançar tal justiça, a não ser que Deus considere o pecador justo devido à justiça alheia, justiça de Cristo.

 

CONCLUSÃO

 

Finalizo este artigo com as palavras do Dr. George Eldon Ladd, que diz:

 

“A missão de Jesus não significou um novo ensinamento, mas um novo evento. Ela trouxe aos homens uma prova real e presente da salvação escatológica. Jesus não prometeu o perdão dos pecados; Ele os conferiu. Ele não somente assegurou aos homens a comunhão futura; mas convidou-os a comunhão com sua própria pessoa como aquele que inaugurou o Reino. Não somente prometeu-lhes vindicação no dia do juízo; mas conferiu-lhes uma justiça presente. Não apenas ensinou-lhes um livramento escatológico do mal físico; mas veio demonstrar o poder remidor do Reino, livrando os homens da enfermidade e até da morte.

 

Este é o significado da presença do Reino com uma nova era de salvação. Receber o Reino de Deus, submeter-se ao domínio de Deus, significa receber a dádiva do Reino e entrar no gozo de suas bênçãos. A era do cumprimento é agora, mas o tempo da consumação ainda espera o século futuro.”[5]

 

 

* Roberto da Silva Meireles Rodrigues é graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Betel, onde também cursa o mestrado em Ministérios. É pastor da Primeira Igreja Batista de Rocha Miranda, Rio de Janeiro.        

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

CARSON, D.A. MOO, Douglas J. MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

 

FERREIRA, Franklin. MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

 

JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.

 

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003.

 

________________________

 

[1] A palavra Sinópticos quer dizer “ver em conjunto”, ela é derivada do grego (synopsis). Foi utilizada pela primeira vez por um teólogo alemão chamado J. J. Griesbach, devido à semelhança encontrada nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas acerca do ministério de Jesus.

 

[2] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 89.

 

[3] É o termo teológico utilizado para descrever a volta de Cristo de forma escatológica. A palavra no grego tem o seguinte significado pará (“ao lado”) e ousia (“estando”), significando “estando ao lado” de forma literal.

 

[4] LADD, ibid., p. 102.

 

[5] LADD, ibid., p. 110.

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